Arquivo para dezembro 2010

Inspiração Tardia

20 de dezembro de 2010

Olá, depois de muito tempo afastado do blog, volto finalmente a postar com alguma regularidade.

Hoje postarei um conto criado por mim que traz um pouco da angustia sentida pelos escritores. Vale a pena conferir (e comentar)

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Inspiração

             Três opções e nada mais.

            Com as mãos trêmulas, Artur ajeitou-se em sua cadeira ortopédica.

            O escritor checou de novo a tela do computador, pensativo. Nenhuma idéia nova. Provavelmente a sua criatividade tinha tirado umas férias sem antes o avisar.

            Ele tentou se acalmar contando até dez, duas vezes, porém não obteve resultado. Estava exausto demais, cansado demais, irritado demais. Afinal de contas, já se encontrava a mais de seis horas naquele impasse.

            Mais cedo ou mais tarde, porém, teria que escolher. Então resolveu fazer um teste, mãos a obra.

            Até aquele momento, o silêncio no quarto só era quebrado por um relógio que tiquetaqueava incessantemente, insistindo em levar consigo os segundos, os minutos e as horas.  Mas de repente isso mudou. E o barulho de teclas digitadas logo preencheu o local.

            Arthur tinha se decidido. Sua inspiração, entretanto, ainda não. Ela vacilava diante das três alternativas, e era ela quem tinha a última palavra.

            Assim, tão rápido quanto surgiu, o som das teclas cessou. E o silêncio se fez mais uma vez. Ou quase, o tique taque continuava.

            Desistindo daquela luta, o escritor puxou a sua cadeira para trás e se levantou. Precisaria achar uma fonte de inspiração ou não conseguiria terminar o seu trabalho.

            Balançou a cabeça, olhando ao redor, vislumbrando a bagunça do quarto.

            Na parede, o relógio mostrava que já eram três e vinte e oito da madrugada.

            Na estante, vários livros, empoeirados em ordem alfabética, faziam companhia a um quadro solitário de Artur e sua família.

            No chão, meias, roupas e vasilhas espalhadas.

            Como era de se esperar, nada disso o inspirou.

            Caminhou, então, em direção à janela e lá parou.

            Viu casas, prédios e grandes construções que se erguiam por toda parte. Algumas árvores, aqui e ali, ousavam a desafiar o mundo de concreto que as rodeava, espalhando pela noite uma brisa morna e aconchegante. Talvez o último resquício do que fora, um dia, uma linda floresta tropical.

            Em cima de um outdoor, uma coruja espreitava sua vítima, um ratinho magricela que revirava uma lata de lixo numa esquina próxima. Artur, prevendo o que aconteceria, arrematou com desdém: – A vida é injusta, meu caro.

            O rato, que estava ocupado demais tentando se livrar dos ataques de uma ave que surgira de repente, não percebeu que Artur falava com ele.

            Depois de muito batalhar e escapar das garras da coruja, o roedor olhou em volta para se certificar de que tudo estava tranqüilo outra vez… e chegou à conclusão de que estava. Por fim, voltou para a lata de lixo que o esperava, pacientemente.

            A cena, uma resposta para Artur. Ela lhe dizia, em tradução livre: por mais que a vida seja injusta, meu caro, você nunca deve desistir.

            Uma bronca, uma inspiração.

            Artur voltou para a sua cadeira e sentou-se, sorrindo para a tela do computador.

            As suas mãos, agora firmes, começaram a se mover lentamente.

            A dúvida que o atormentava a mais de seis horas foi ficando para trás.

            Três opções e, enfim, ele decidiu. Nenhum dos três nomes faria jus ao livro que tinha acabado de escrever. Apagaria tudo, mas jamais usaria um nome inapropriado para batizar aquela que seria a sua maior obra-prima.

            Assim que terminou de apagar o livro, Artur se jogou exausto em cima da mesa do computador e, antes de cair no sono, pensou: “Nomes são sempre um problema.”

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Conto baseado em um experiência que tive. Gostou? Não? Comente!