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Capítulo I – Prólogo

19 de junho de 2011

Bom dia, tarde ou noite.

Depois de muuuito tempo parado, resolvi começar a postar de novo no blog. Desta vez, eu espero ter uma certa continuidade nos posts, mesmo porque já tenho alguns escritos prontos.

Mas vamos deixar a conversa de lado e tratar do verdadeiro objetivo do post: apresentar para vocês o primeiro capítulo do livro que estou escrevendo. Espero que se divirtam com a leitura leve e dinâmica.

Capítulo I – Prólogo

Tempos de desespero pedem medidas desesperadas. Depois de tudo o que tinha acontecido, não dava mais para voltar. Eu tinha sido escolhido e treinado para aquele momento decisivo. A vida de seis bilhões de pessoas dependia de mim e eu só teria uma chance. Era vencer ou vencer!

Por isso estava ali, procurando uma maneira de entrar naquela velha construção do século dezenove. A lua cheia, da escuridão do espaço, iluminava a frente do que um dia foi uma igreja, revelando parte de um jardim e mostrando a beleza de uma natureza morta: um quadro pintado por um artista melancólico.

Inscrições em latim decoravam o grande portão central à minha frente. Demorei alguns minutos lendo uma de especial significado, que me trazia recordações.

As palavras Kyrie Eleison, apesar de bastante apagadas, destacavam-se a meus olhos, fazendo com que sombras de um passado recente começassem a pairar sobre mim. Gritos, choro e luz se misturaram em um turbilhão de memórias. Balancei a cabeça algumas vezes para afastar a distração e, concentrando-me, comecei a inspecionar o local.

Grades altas cercavam toda a construção. No topo delas, várias cruzes enferrujadas estavam espalhadas, formando uma proteção contra possíveis invasores.

Ao olhar para cima, reparei que uma cruz desgastada pendia assustadoramente para a direita, ameaçando cair sobre a minha cabeça. Para evitar uma morte inútil e desnecessária, andei em direção ao portão central, afastando-me do perigo iminente. Foi quando ao longe, dentro da construção, percebi vultos.

Olhando para dentro da igreja construída no final do jardim, vi o movimento de três corpos. Eles balançavam como se estivessem em uma dança sincronizada, embalados apenas pelo silêncio, procurando o posicionamento perfeito para fechar o círculo que daria início ao nefasto ritual de Kairos.

Não consegui notar as outras nove pessoas restantes, porém sabia que estavam todas lá. Em minha cabeça surgiu a imagem dos doze corpos formando uma espécie de relógio ao redor do altar da igreja, cada qual representando determinada hora do dia. E no centro do cenário estava o responsável por tudo aquilo.

Um calafrio percorreu a minha espinha, eriçando todos os meus pelos. Estremeci com temor e ódio. Meu antigo mestre. Meu novo inimigo. Azhmael era o seu nome, também conhecido como Arcanjo Guerreiro, o guardião das sete casas celestiais.

Mais do que um herói caído, uma verdadeira lenda renegada que com um simples bater de asas foi capaz de transformar o Céu em um inferno, quase que literalmente.

Eu só não entendia os porquês, o que o motivara a agir daquele jeito. Por que se rebelar contra a Ordem Superior? Por que negar a criação do Criador? E, principalmente, por que ele tinha que fazer aquilo comigo… por que tinha que roubar o meu único tesouro.

Se naquele dia eu teria as respostas, não importava. Já era tarde demais. Pra mim bastava o fato de que Azhmael estava com a pequena Nicole – uma garotinha indefesa presa nas garras do que agora era um monstro astuto e cruel.

Por isso cumpriria minha missão a todo custo. Impediria que o ritual acontecesse e que o Apocalipse fosse conjurado. Além disso, tinha minhas próprias contas para acertar com Azhmael. Muitas delas.

Quando chegasse a hora, a primeira coisa a fazer seria cortar as suas asas, ele não era mais digno de exibir o seu esplendor. Depois aniquilaria sua aura e a mandaria para o limbo. Ou seria melhor mandá-la para o Necrus?

Assim, pensando na pior maneira de me vingar do cara que havia me ensinado o significado de justiça e lealdade, foi que notei que a velocidade dos dançarinos diminuía dentro da velha igreja.

Do jeito que as coisas iam, em breve o silêncio se transformaria em música e o som de cânticos encheria o ambiente sacro. Quando isso acontecesse, a preparação da cerimônia estaria completa. Ou seja, o tempo mais uma vez estava contra mim.

Se ao menos eu não tivesse perdido tanto tempo com os idiotas alados, teria uma chance melhor. Mas não. Eles fizeram questão de explicar em detalhes como o reino celestial dependia de mim e de como, em contrapartida, a minha vida dependia dele. Agora só um milagre poderia me ajudar.

Um suspiro próximo tirou minha concentração, lembrando-me de que tinha companhia.

Fiquei de lado para encarar o garoto. Sua aparência sugeria uns dezesseis anos. Ele tinha cabelos pretos curtos e pele clara. Usava uma jaqueta preta desbotada, que escondia parcialmente os seus braços; e uma calça jeans velha, rasgada na altura dos joelhos. Um medalhão de São Bento pendurado no pescoço era seu cartão de visita, sua marca pessoal.

Aquela seria a sua primeira missão e, se Deus quisesse, não seria a última.

Segundo as profecias, ele teria um papel crucial na batalha que estava prestes a acontecer, sendo o único capaz de derrotar o meu antigo mestre quando chegasse a hora do confronto. Eu não tinha a menor ideia de como o garoto faria isso, mas acho que o fato de ele ser o filho de Azhmael deveria ser levado em conta.

– Lucas, eu acho que o ritual começará em breve. Ainda lembra as instruções? – indaguei com uma voz suave, quebrando o silêncio entre nós.

– Sim – disse ele, fazendo uma careta.

Dei um sorriso descontraído. Parecia que o meio anjo se lembrava perfeitamente das instruções dadas por Neleh, o arcanjo no comando de nossa operação.

– Então esteja preparado – continuei –, nunca se sabe o que pode acontecer…

A minha voz foi sumindo lentamente. E o silêncio mais uma vez caiu sobre nós. A calmaria antes da tempestade.

Admito que não era o melhor momento para conversar. Mas fazer o quê? Eu temia o pior. E, infelizmente, meu instinto nunca falhava. Assim, aproveitei a oportunidade para perguntar ao garoto se ele já tinha enfrentado a morte antes.

Lucas pareceu ponderar a minha indagação. A incerteza em seus olhos não me permitiu distinguir se o que diria seria verdade ou mentira. Antes de responder, ele olhou para os lados, como se estivesse procurando alguma coisa ou alguém. Acompanhei o seu movimento, mas não vi nada de anormal; apenas a noite nos fazia companhia.

– Não – respondeu ele, sua voz era apenas um sussurro na escuridão. – E você?

– Já – eu disse calmamente. – E perdi. Vamos ver se tenho mais sorte desta vez.

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